A exposição revisita o projeto de atividades de expressão criativa concebido e concretizado por Elvira Leite envolvendo os moradores do largo de Pena Ventosa, no Bairro da Sé, no Porto, no seguimento da extinção do Serviço Ambulatório de Apoio Local (SAAL), em 1976. Durante mais de um ano, a rua tornou-se lugar de discussão de ideias, planeamento de atividades, demonstração de técnicas e por fim espaço de atelier onde crianças de todas as idades concretizaram um plano, construído em diálogo, que integrou os seus interesses e propostas. A constatação dos sentimentos de impotência e revolta de uma comunidade, perante o falhanço da promessa de melhores condições de habitação, foram o impulso para a ação de Elvira Leite.
Concretizado no início da sua carreira profissional, o projeto da Pena Ventosa elucida já o que viria a tornar-se um pensamento e uma prática, uma pedagogia, alimentada pela sensibilidade e inteligência e ancorada em pesquisa e formação que procurou por iniciativa própria num processo que Elvira Leite caracteriza de autodidata. Uma pedagogia normativa, aberta ao imprevisto e orientada para a concretização de projetos individuais e coletivos.
Organizada por núcleos de fotografias realizadas por Elvira Leite para documentar as diversas fases do projeto, revelam o pensamento que o sustentou e testemunham a aplicação de uma metodologia que Elvira Leite irá consolidar ao longo da uma vida dedicada à promoção de valores de democracia e de liberdade através de uma prática orientada para o estímulo à expressão criativa. Relembrando a convicção de Helen Levitt de que a beleza se extrai da realidade, o que importa nestas fotografias não é a visão nostálgica do passado, mas antes a descoberta das suas ligações e transformações no presente a par da manifesta actualidade da sua divulgação, quando a rua parece agora um lugar menor de invenção lúdica e reivindicação política.



