quem te ensinou? - ninguém.

PORTO 1977
Elvira Leite

Curadoria de Susana Lourenço Marques, Lúcia Almeida Matos, Luís Pinto Nunes

2 JUN — 14 OUT 2023

Crianças desenham a giz no chão de pedra © Elvira Leite, 1977

A exposição revisita o projeto de atividades de expressão criativa concebido e concretizado por Elvira Leite envolvendo os moradores do largo de Pena Ventosa, no Bairro da Sé, no Porto, no seguimento da extinção do Serviço Ambulatório de Apoio Local (SAAL), em 1976. Durante mais de um ano, a rua tornou-se lugar de discussão de ideias, planeamento de atividades, demonstração de técnicas e por fim espaço de atelier onde crianças de todas as idades concretizaram um plano, construído em diálogo, que integrou os seus interesses e propostas. A constatação dos sentimentos de impotência e revolta de uma comunidade, perante o falhanço da promessa de melhores condições de habitação, foram o impulso para a ação de Elvira Leite.

Concretizado no início da sua carreira profissional, o projeto da Pena Ventosa elucida já o que viria a tornar-se um pensamento e uma prática, uma pedagogia, alimentada pela sensibilidade e inteligência e ancorada em pesquisa e formação que procurou por iniciativa própria num processo que Elvira Leite caracteriza de autodidata. Uma pedagogia normativa, aberta ao imprevisto e orientada para a concretização de projetos individuais e coletivos.

Organizada por núcleos de fotografias realizadas por Elvira Leite para documentar as diversas fases do projeto, revelam o pensamento que o sustentou e testemunham a aplicação de uma metodologia que Elvira Leite irá consolidar ao longo da uma vida dedicada à promoção de valores de democracia e de liberdade através de uma prática orientada para o estímulo à expressão criativa. Relembrando a convicção de Helen Levitt de que a beleza se extrai da realidade, o que importa nestas fotografias não é a visão nostálgica do passado, mas antes a descoberta das suas ligações e transformações no presente a par da manifesta actualidade da sua divulgação, quando a rua parece agora um lugar menor de invenção lúdica e reivindicação política.

Planta da Galeria da Fundação Cecilia Zino

1 · Como brincam as crianças?

As crianças do bairro passavam o tempo a brincar às bulhas, às guerras, trepar aos muros, jogar cartas, jogar a bola, à macaca, às casinhas, às bodegadas com água dos charcos…

2 · Desenhos a giz no chão

O giz branco foi o primeiro material de trabalho. Giz sobre as pedras do chão. Desenhos a giz percorreram todo o lugar, avançando para fora do largo, ruas, escadas… O bairro ficou lindo!

3 · Também se pinta

As pinturas surgiam sem indecisões, a tinta percorria por todo o papel e ninguém perguntava “que pintura faço?”. Exprimiram-se sentimentos e emoções em forma de rios, pontes, castelos, chuvas, sóis. Pintar era muito bom, era um luxo!

4 · ‘Instalações’

Com materiais trazidos de casa e outros encontrados (brinquedos, pedaços de pano, pedrinhas, caricas, coisas estranhas encontradas nas lixeiras) apareceram representações de realidades e também de desejos ocupando um cantinho, uma parede, um degrau de escada.

5 · Teatrinho

As histórias, eram sempre ligadas ao lugar. As escolhidas foram ‘O capuchinho vermelho da Sé’ a fazer referência ao marialvismo dos homens da zona da Banharia, ‘Os barulhos da Pena Ventosa’ sobre as permanentes zangas entre os moradores, ‘A bicha do bacalhau’ a propósito da escassez de alimentos na mercearia local.

6 · 25 de Abril: Corrida de Carrinhos de Rolamentos

Grupos de crianças construíram carros: pequenos, grandes, abertos, fechados, almofadados, com costas e braços, decorados ou simples. Via-se rapazes a serrar, a martelar, a pintar, a trabalhar com alegria e garra para representar o seu bairro. Fizeram-se papagaios de cana e papel para lançar na festa e também instrumentos sonoros para acompanhar a banda dos Pop Latas.

Produção e Montagem

Cristina Hora, Carolina Caldeira, Emanuel Rodrigues, Délia Rodrigues

Digitalização e impressão fotográfica

Lumen, Imaging & Design Studio

Edição de imagem

Bruno Figueiredo, João Lima, Joana Manuel, Luís Pinto Nunes, Susana Lourenço Marques

Edição de vídeo

Vitor Almeida

Fotografia

Elvira Leite, Pena Ventosa, Porto, 1976/77 [Restauro e edição digital, 2016; Impressão a jacto de tinta em papel Hahnemuehle Cotton Smooth 300g]

Design de Comunicação

graficosdofuturo.com

Agradecimentos

Elvira Leite, aos moradores da Pena Ventosa que colaboraram, em especial Palmira Azevedo [da Tineira]

Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto
Plano nacional das Artes