Ausente Presente
Parto da minha experiência enquanto médica e psicanalista abordando a dimensão relacional do corpo com as obras e com o espaço. O corpo dos visitantes em movimento, ativadores de novas relações expressivas com os corpos “pousados” no espaço expositivo, geram novas experiências e novas possibilidades relacionais, os momentos interrelacionais intersubjetivos.
Ausente Presente é um projeto de criação artística experimental com formato de instalação, que relaciona a prática da dança e do desenho. Parto de vivências, como o corpo recostado no divã, envolvido pelo som e pelo silêncio, em relação e em autorreflexão, no gabinete de psicanálise. Também o corpo em movimento em ambiente hospitalar. Neste espaço, o corpo aflito configura-se e assume várias formas e posições no espaço, muitas em sincronia com o corpo que ajuda, recetivo, côncavo. O papel é o material protagonista, “feito corpo” à escala humana, recortado em formas simples e pintado em processo ritual gestual. Juntamente com as esculturas em madeira e acrílico, cortadas e talhadas, pensadas como unidades a utilizar na construção de composições no espaço, como num jogo relacional entre si e com o espaço, complexificado com elementos sem “densidade física”, tais como a palavra, o som, a luz e a projeção de diapositivos desenhados.
O espaço em que convivem o corpo dos visitantes e o corpo das obras, em movimento ou imóveis, visíveis e não visíveis, silenciosas e audíveis, subjetivas e concretas, é um espaço de tensão e harmonia ao mesmo tempo ou em tempos diferentes, num jogo de impermanências, de vivências e de “vidas” etéreas, numa dança fluída em diferentes ritmos. Este jogo relacional adapta-se a cada espaço expositivo e a cada contexto. As composições geram ambientes novos em cada espaço e com cada público e, tal como nas relações humanas, abrem caminho para o emergir de novas formas, novas perceções, novas interpretações, novos entendimentos.
Na relação com os diversos públicos, em cada apresentação é pedido a cada visitante que desenhe (usando material fornecido) a sua perceção, a sua experiência, a sua vivência deste/neste espaço expositivo. Com estes “desenhos” será organizado um arquivo de experiências dos visitantes, a partilhar no meu site profissional, a par dos registos fotografados e filmados in loco no momento em que decorre a exposição, de modo que esta fique, assim, documentada em arquivo vivo, participativo e relacional, construído no decurso das suas várias etapas.
Ao longo do tempo de itinerário da exposição, serão planeadas e construídas novas composições e apresentações, complexificando e/ou simplificando, tornando assim as experiências cada vez mais significativas; as minhas enquanto artista e as dos visitantes enquanto participantes nesta “experiência” artística.
Cada apresentação do projeto tem assim uma montagem inicial que é alterada em períodos combinados, durando cada versão da nova montagem vários dias ou horas, acontecendo pequenas ou grandes alterações que surgirão deslocando, retirando e acrescentando peças (incluindo som e imagem) permitindo aos visitantes que, voltando à exposição, experienciem novas vivências.
Lisboa, 20 de Setembro de 2021
Patrícia Timóteo



