Júlio Dolbeth

Ilustração
da Angústia

10 — 30 SET 2021

Ilustração da Angústia por Júlio Dolbeth

angústia | n. f.

an·gús·ti·a
(latim angustia, -ae, estreiteza, contrariedade, aflição)

1. Estreiteza.
2. Grande aflição acompanhada de opressão e tristeza.

"angústia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021 [consultado em 30/08/2021].

A captura do rosto de amigos, ou dos seus mais próximos, tantas vezes realizada em serões tardios na sua amada Porto, exacerbando proporções, mas não as caricaturando, permitem-lhe revelar-se através do interior dos seus representados.

As obras do Júlio Dolbeth recusam o estereótipo da ilustração demagógica de frases fáceis e soltas. Subverte, mais uma vez aqui, nesta série dedicada à angústia, o cânone deste novo realismo básico e sentimental, que procura na sua maioria um olhar irónico e de riso fácil. Escapa também às armadilhas do realismo social da arte ao serviço da ideologia. Reafirma antes o seu compromisso com a realidade do problema humano.

A fragilidade e ambiguidade está espelhada na maioria dos seus trabalhos. Não a ambiguidade de quem fica em cima do muro sem assumir uma posição clara, mas a inerente ao estilo, ao modo de representar as suas personagens, de encenar os conflitos interiores seus e de cada uma daquelas.

As suas ilustrações surgem-nos como se todas fizessem parte do mesmo espetáculo, um mesmo jogo vital de vários lances, papéis e protagonistas, em que se perseguem imensas finalidades “sem finalidade final” concebível, exceto a de no-las representar (e, afinal, nos representarmos a nós próprios) como espetáculo.

Nas ilustrações do Dolbeth o fundamental é o homem. Não há plano de fundo - O mundo é o pano de fundo, cenário iluminado pelo clima psicológico das suas personagens. Reduzindo a utilização de cores e simplificando o traço dá aos seus desenhos uma força mítica e primordial.

Jacques Lacan (1901-1981), dizia que a angústia sinaliza a emergência do desejo do Outro, entendido num registo específico, o do real.

A angústia é o afeto que revela a falta de autonomia do sujeito, que se encontra, nesse caso, impedido de responder diante de um Outro cujo querer é enigmático para ele.

Tal como no Grito de Eduard Munch (1893), estas personagens da série “angustia” do Julio Dolbeth são representadas com um olhar vazio, inexpressivo porque a angustia não se vê mas representa sempre um grande vazio, um grande cansaço.

Apresenta-nos uma coleção de seis homens capturados como se de uma foto tipo “passe” se tratasse, narrando uma história sensorial, em que a realidade exterior nos é traduzida e coada pela sensibilidade dos personagens.

Gentil, como ele é, representa-os a todos com um raio de luz a dar na cara – a esperança.

J. Andrade

Júlio Dolbeth

Júlio Dolbeth

Doutorado em Arte e Design, área de ilustração, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), mestrado em Arte Multimédia pela FBAUP/FEUP.

Licenciado em Design de Comunicação pela FFBAUP. Professor auxiliar na FBAUP. Co-fundador e curador da galeria Dama Aflita, no Porto (2008 - 2015). Artista e ilustrador, tem exposto regularmente em mostras individuais e coletivas.

Como ilustrador tem colaborado com diferentes publicações, projetos editoriais ou outros suportes, destacando, Blue Design (PT), DIF (PT), Fabrico Próprio (PT), Inútil (PT), Jornal Público (PT), Parq (PT), WAD (FR), Computer Arts (UK), Próximo Futuro (Gulbenkian/ PT), Slanted (DE) entre outras. É representado pelas galerias Ó Galeria (Porto), Senhora Presidenta (Porto) e Mad is Mad (Madrid).

juliodolbeth.com
instagram.com/dolbeth