angústia | n. f.
an·gús·ti·a
(latim angustia, -ae, estreiteza, contrariedade, aflição)1. Estreiteza.
2. Grande aflição acompanhada de opressão e tristeza."angústia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021 [consultado em 30/08/2021].
A captura do rosto de amigos, ou dos seus mais próximos, tantas vezes realizada em serões tardios na sua amada Porto, exacerbando proporções, mas não as caricaturando, permitem-lhe revelar-se através do interior dos seus representados.
As obras do Júlio Dolbeth recusam o estereótipo da ilustração demagógica de frases fáceis e soltas. Subverte, mais uma vez aqui, nesta série dedicada à angústia, o cânone deste novo realismo básico e sentimental, que procura na sua maioria um olhar irónico e de riso fácil. Escapa também às armadilhas do realismo social da arte ao serviço da ideologia. Reafirma antes o seu compromisso com a realidade do problema humano.
A fragilidade e ambiguidade está espelhada na maioria dos seus trabalhos. Não a ambiguidade de quem fica em cima do muro sem assumir uma posição clara, mas a inerente ao estilo, ao modo de representar as suas personagens, de encenar os conflitos interiores seus e de cada uma daquelas.
As suas ilustrações surgem-nos como se todas fizessem parte do mesmo espetáculo, um mesmo jogo vital de vários lances, papéis e protagonistas, em que se perseguem imensas finalidades “sem finalidade final” concebível, exceto a de no-las representar (e, afinal, nos representarmos a nós próprios) como espetáculo.
Nas ilustrações do Dolbeth o fundamental é o homem. Não há plano de fundo - O mundo é o pano de fundo, cenário iluminado pelo clima psicológico das suas personagens. Reduzindo a utilização de cores e simplificando o traço dá aos seus desenhos uma força mítica e primordial.
Jacques Lacan (1901-1981), dizia que a angústia sinaliza a emergência do desejo do Outro, entendido num registo específico, o do real.
A angústia é o afeto que revela a falta de autonomia do sujeito, que se encontra, nesse caso, impedido de responder diante de um Outro cujo querer é enigmático para ele.
Tal como no Grito de Eduard Munch (1893), estas personagens da série “angustia” do Julio Dolbeth são representadas com um olhar vazio, inexpressivo porque a angustia não se vê mas representa sempre um grande vazio, um grande cansaço.
Apresenta-nos uma coleção de seis homens capturados como se de uma foto tipo “passe” se tratasse, narrando uma história sensorial, em que a realidade exterior nos é traduzida e coada pela sensibilidade dos personagens.
Gentil, como ele é, representa-os a todos com um raio de luz a dar na cara – a esperança.
J. Andrade


